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VENCEDORES I ARRAIAL LITERÁRIO À MODA ANTIGA
VENCEDORES I ARRAIAL LITERÁRIO À MODA ANTIGA

 

TEXTOS VENCEDORES DO I ARRAIAL LITERÁRIO À MODA ANTIGA

 

 

 

TROFÉU DE MELHOR TEXTO E MEDALHA DE OURO EM PROSA: NYLTON GOMES BATISTA (OURO PRETO - MG) - SANTO ANTÔNIO CAIU FORA

 

Santo Antônio caiu fora

Anunciada aos quatro cantos como “junina”, a festa corre solta na quadra de esportes com muita gente a circular entre barraquinhas, que vendem cerveja estupidamente gelada - apesar do frio intenso - refrigerantes, churrasquinho no espeto, cachorro quente. Talvez, para justificar o gênero, canjica e quentão são vendidos em barraquinha à parte das demais. E é junto a esta que se encontram Tatão, Quinzão e Manelão, os três na faixa dos setenta e amigos desde infância. Manelão sorve um pouco do quentão, faz careta e desabafa:

- Pô, quem diz que isso é quentão não sabe o que é purgante; estão de sacanagem com a gente! Os companheiros o acompanham na bebida e reagem da mesma forma.

- Ora, é puro álcool com água e açúcar – diz Tatão.

- Pode-se considerar crime contra a cultura nacional! É Manelão que volta à carga na crítica contra a bebida, vendida como quentão. E continua:

- O quentão é bebida tipicamente brasileira, praticamente exclusiva dessas festas e já deveria ser tombada como patrimônio imaterial.

- E eu diria que não somente o quentão, porém a própria festa junina – diz Tatão, acrescentando: - festa junina é o que há de mais representativo da cultura interiorana brasileira. E a estupidez tupiniquim, que só pensa em copiar o rebotalho de culturas estranhas, transformou nisso que aí está.

 Quinzão, atento à indignação dos amigos, dá sua opinião:

- Mas, agora é tarde demais para recuperar o que se foi. Não mais existe nada do que foi o verdadeiro folguedo junino. Pensava terem sobrado, pelo menos, o quentão e a canjica. Já se vê que me enganei, ou melhor, enganamo-nos. Ouçam o que eles chamam música no tal som mecânico: funk! Em festa junina é caso de polícia. Esse gênero de evento tem de ser com sanfoneiro, ao vivo, a tocar músicas de ocasião. E onde está a fogueira? Os fogos? Em festas de fogueira a Santo Antônio, São João e a São Pedro, não se soltavam foguetões; eram bombinhas, foguetinhos leves, rodinhas, fogos de bengala, espanta-coió, busca-pé. Em sua maioria, esses fogos eram adequados à manipulação por crianças. Não ofereciam grande perigo. No meu tempo havia até balão; hoje proibido porque provoca incêndio ao cair.

- E havia também o foguete “fiau”!

- Não, Manelão – corta Tatão – esse foguete, de assovio, não era usado em festas juninas. Era considerado insultuoso e, por isso, muito usado ao fim de jogos de futebol, pela parte vitoriosa. Era também usado por candidatos eleitos, ao fim da apuração de eleições políticas. Esse tipo de foguete acabou sendo proibido, em Minas, porque ensejava muita briga. Muito sangue jorrou por sua causa! Há alguns anos, foi reabilitado e, por ironia, em festa oficial. E as novas gerações o receberam como novidade. Não sabem o que ele foi e provocou no passado! E quanto à sua observação, Quinzão, de que é tarde demais para recuperar a festa, digo-lhe que tudo depende de vontade política por parte dos ocupantes de cargos na área cultural e boa vontade por parte do povo, maior interessado e principal agente da cultura. Até mesmo o balão pode ser reabilitado, pois já existe técnica que o impede de cair aceso, cessando, portanto, o perigo de incêndio

- Haverá que ter muita vontade mesmo – devolve Quinzão – porque nem mesmo bandeirinhas são usadas.

- Mas, a festa foi descaracterizada pela ganância – volta Tatão - Os que as promovem não pensam em tradição e nem mesmo em diversão. O que conta é a arrecadação! Quanto menos gastos com decoração, atrativos e acessórios, maior é o lucro! Tome o quentão como exemplo. Bem feito, ele consome bem mais ingredientes: laranja da terra, canela, cravo-da-índia, gengibre. E eu me lembro de que, em lugar de açúcar, muitas vezes entrava o mel. Hoje, quem tem coragem de fazer o quentão genuíno? Ninguém, porque tudo é para ser convertido em dinheiro! E a canjica?

Quem responde é Quinzão:

- Tomei uma, noutra festa, sem qualquer tempero; uma água choca. A daqui não quero nem experimentar; basta-me a experiência com o quentão. E esse leite que usam...

E Manelão, a gracejar, complementa a frase:

- Antigamente, leite era fabricado, exclusivamente, por dona vaca. Quase que diretamente de suas tetas o leite chegava à nossa mesa. Atualmente, ele é apenas um dos insumos no processo de obtenção daquele produto que vem encaixotado. Retira-se do leite, sua força, sua vida, e lhe acrescentam elementos intrusos. Vocês sabem que até soda cáustica já foi encontrado no dito leite. Eu sou à moda antiga: leite tem que vir direto das tetas da vaca.

- Olha gente, parece que vai começar a quadrilha – alerta Quinzão. 

De fato, grupo de mocinhas e rapazes vestidos a caráter atravessa a área à frente dos três amigos.

- Mas, vejam como exageram nos toques caipiras da indumentária e da maquiagem! – observa Tatão – O caipira destoava do citadino, em todos os aspectos, mas não chegava ao ridículo que mostram na dança da quadrilha. Vamos ver se, pelo menos na quadrilha a trenheira eletrônica reproduz algo do gênero junino.

- A barraca de cachorro-quente não para de vender; parece ser o produto mais vendido nesta festa – diz Quinzão.

- Nesta e noutras - corrige Tatão – Não entendo como deixam coisas mais saborosas do cardápio nacional para comer essa iguaria intrusa. Mas, por que o nome cachorro-quente?

- Ora, Tatão, você, tão esperto, a fazer tal pergunta? – é Manelão surpreso. Dá-se o nome de cachorro porque não ficaria bem o nome da parte de seu corpo, sugerido pelo recheio do sanduíche.

É a vez de Quinzão mostrar surpresa, constatada por sua reação, ao dar forte tapa nas costas do Tatão, enquanto cai em estrondosa gargalhada, a ponto de chamar a atenção de pessoas à relativa distância. Quando se recupera, momentaneamente, do ataque de riso, fala:

- Êh! amigo, desta vez você ficou pra trás. Pode até haver outra explicação para o nome “cachorro-quente”, mas que é convincente a explicação dada pelo Manelão, lá isso é! A coisa parece!

Tatão fica um tanto desconcertado, mas capitula diante das gozações dos dois amigos:

- Vocês têm razão e a explicação do Manelão faz sentido. Confesso nunca ter atinado com tal semelhança! Se antes, evitava comer “cachorro-quente”, agora é que não como mesmo!

Enquanto brincam entre si, em torno do “cachorro-quente”, a quadrilha tem início e eles nem percebem. Só se dão conta da dança quando ouvem a voz do marcante a se sobressair em meio ao burburinho. Mas, têm outra decepção: a música, saída das caixas em volume acima do normal, nada tem a ver com festa junina, confirmando-se então completa descaracterização do tradicional folguedo.

- Lamentável tudo isso, gente. Como avacalharam festa tão bonita! – exclama Quinzão – essa moçada de hoje acaba com tudo.

- Não, amigo; esses jovens não têm culpa. Eles já encontraram a festa descaracterizada. Os verdadeiros culpados foram os de nossa geração, que se descuidaram e permitiram as primeiras alterações. Daí em diante, cada um fez o que quis. A incultura se introduziu neste país ao longo de algum tempo. Portanto, os de hoje são mais vítimas do que culpados!

- Sanfona, nem em gravação! É o fim da picada! - exclama Manelão. E Tatão discorre:

- Como consolo, cada um de nós viveu a época da festa genuína; portanto, somos testemunhas do quanto se empenhava de cada um, dentro da comunidade, para que tudo saísse nos conformes; a decoração formada por arcos de bambu e cordões de bandeirinhas multicoloridas, entrelaçados; grande fogueira com toras de madeira; foguetinhos, bombinhas, rodinhas de fogo multicolorido; fogos de bengala; busca-pé, espanta-coió, etc.; sanfona a tocar durante toda noite; brincadeiras diversas como quebra-pote, pau-de-sebo, correio elegante, leitura da sorte, polícia e cadeia (soltura mediante fiança).

-Você se esquece do casamento caipira – adverte Quinzão – Hoje, não se faz, mas era a parte mais engraçada.

- Eu ia chegar lá; você é que é muito apressadinho! Mas, o casamento caipira era a coroação de toda a festa, antecedendo a dança da quadrilha e o bailão, atualmente denominado forró. Na verdade, a dança da quadrilha seria justamente o baile comemorativo do “casamento caipira” ou “casamento na roça”.

- Vi alguns desses casamentos, muito engraçados – comenta Quinzão – mas, isso dependia muito dos atores. Alguns apenas decoravam seus respectivos papéis, o que tornava a encenação fria, destituída de graça, mesmo que fala mais engraçada estivesse incluída. Quando a equipe, ou, pelo menos, parte dela sabia improvisar, o “casamento” prendia a atenção do público e provocava interação com este. O desfecho era imprevisível e, geralmente, mais engraçado do que o previsto no script.

Manelão, depois de uma mirada sobre todo o ambiente da festa, vira-se para os dois amigos:

- Vocês não acham que é caso típico de propaganda enganosa? E como tal não merece denúncia no PROCON?

- Aí, você está a querer demais – opina Quinzão, ao que replica Tatão:

- De certa forma, ele tem razão, porém duvido que o órgão aceite o caso como digno de qualquer reclamação.

- Ora, e por que não? – volta Manelão – Por meio de faixas, cartazes, anúncio pelo rádio e em jornal, anunciou-se festa junina. Sabe-se que festa junina tem fogueira; música típica tocada em sanfona, ao vivo; casamento caipira e brincadeiras próprias da ocasião; fogos adequados ao gênero da festa. Nesta não há nada disso.

- Acontece amigo, que se trata de produto cultural, do patrimônio imaterial. Ninguém se preocupa com isso, e, vão dizer que se trata de festa aberta, vai quem quer, etc. e coisa e tal. Se fosse produto comercial, seria diferente.

- Tamo na mão de calango! – exclama Manelão.

- E tamo memo! – replica Quinzão com uma risada.

Tatão, a dar sinais de se arrancar da festa, vira-se para o Manelão e diz:

- Você, que conta tanto caso engraçado vivenciado na mocidade, não tem nenhum a contar com relação a festa junina?

- Engraçado! Até parece transmissão de pensamento, pois estava a me lembrar de uma a que fui, no fim da adolescência.

- Aqui mesmo? – indaga Tatão.

- Sim, no sítio do Bené Turum.

- Turum? eu me lembro bem dele; muito rude, porém alegre, trabalhador, comunicativo e festeiro. Êta homem que gostava de festa! De festa da paróquia, que o tinha como primeiro festeiro, podia-se esperar o melhor. Ele tinha muito gosto na realização de festas, embora fosse analfabeto e falasse de um jeito muito engraçado. Era caipira em corpo e espírito!

- Pois é – volta Manelão – Correu notícia de que o Bené Turum estaria para celebrar bodas de prata e associaria as comemorações à festa de Santo Antônio, que ele fazia todos os anos, por ter um filho com o nome do santo. E vocês se lembram do Nonô do Antão?

- Fomos colegas de escola, bom menino – diz Quinzão.

- Tinha um ar tristonho, dizem que por perdido a mãe no seu nascimento. Foi criado pelo pai, Antão, ajudado pela própria mãe, avó do Nonô – explica Tatão.

E o Manelão continua: - Nonô “arrastava as asas” pela Mariinha, filha do vizinho do Turum e muito amiga das filhas deste; “arrastava” porque ele não tinha coragem de se aproximar dela e ela parecia nem saber de sua existência. Ele me procurou, falou sobre a festa e sugeriu que fôssemos: ele, o Leléu e eu. Formávamos o trio “arroz doce sem canela”; quero dizer, estávamos em todas, sempre juntos. Vocês devem se lembrar que havia uns dois quilômetros até o sítio. Pois bem, no dia anunciado, lá fomos nós, cheios de sonhos, na esperança de possível conquista amorosa, especialmente o Nonô com ideia fixa na Mariinha. No alto do morro, meio do percurso, fomos surpreendidos por visão das mais bonitas: lá em baixo, todo o sítio estava iluminado, da casa até os pontos mais afastados. À medida que nos aproximávamos pudemos avaliar o trabalho que a família teve: no topo de cada árvore, dentre as menores, havia, pelo menos, uma lanterna em papel colorido; e debaixo delas, várias, penduradas em galhos. O laranjal, à frente da propriedade era uma profusão de luzes e cores; arcos de bambus e bandeirinhas se estendiam até o grande terreiro, totalmente iluminado e decorado da mesma forma. Toda a fachada da casa avarandada ostentava lanternas do mesmo tipo. A animação era grande e, dentro desse clima, grupo de senhoras deu início à parte religiosa com a reza do terço e cânticos em louvor a Santo Antônio. Como era de praxe, então, foi levantado o mastro com a bandeira de Santo Antônio, no meio do terreiro. Em seguida saiu o cortejo do casamento caipira, os “noivos” em carroça engalanada, tendo à frente três sanfoneiros e o grupo da quadrilha, seguido pelos demais convidados. Mas, sabem quem eram os “noivos”? o próprio casal aniversariante: Bené Turum e dona Ninica! Sob surpresa geral, o cortejo percorreu extensa alameda dentro do laranjal e retornou ao terreiro com muitos “vivas”, não se sabendo se eram aos “noivos” do evento junino ou ao casal a celebrar vinte e cinco anos de casamento.

- Mas, e o Nonô arranjou-se com a Mariinha? – é a curiosidade do Quinzão.

- Ela estava com outras mocinhas a esbanjar sorrisos e galanteios, mas o Nonô não se aproximava. À volta da extensa mesa, onde comida e bebida farta se ofereciam aos convivas, estivemos bem próximos a ela. Nós o estimulamos à aproximação, mas, nada. O rapaz embatucou-se. E resolveu esconder sua timidez, comendo e bebendo. E como havia comida, gente! De repente o dono da festa anunciou o início do casamento. Os personagens, “padre”, “juiz de paz”, “delegado”, um “soldado”, se posicionaram e começou, então, o “casamento”.  A princípio, o público mostrou-se um tanto constrangido para fazer as brincadeiras, normais e aceitáveis naquela ocasião, pois na figura de “noivos” estava um par regularmente casado, dono da casa e da festa, que comemorava bodas de prata.

- Realmente, a situação devia ser constrangedora; os filhos do casal ali a ouvir... – interrompe Tatão.

- Mas, o próprio Bené Turum colocou o povo à vontade. Começou a fazer gracejos de toda sorte, provocando o riso e mais brincadeiras por parte do público, à medida que o “padre”, o “juiz de paz” e o delegado o interpelavam sobre o fato de ele ter “feito mal” àquela moça. As brincadeiras, piadas e chacota foram crescendo até o momento em que Turum diz:

- Ó seu dotô, num tem probrema. Eu caso quela pruquê quem embuxô ela fui eu memo!

Quando ele disse isso alguém lá num canto do terreiro cheio de gente gritou:

- Cê casa mas o pai sou eu, chifrudo! – ao que Turum reagiu:

- Disgraçaaado! – ao mesmo tempo sacou uma garrucha e...buuummm, na direção do presumível desafeto.

- Assim, sem mais nem menos? – indaga Quinzão.

- Foi o estouro da boiada; gente a correr, gente a gritar, gente a cair. Mas, no meio daquela confusão, um dos filhos do casal grita: não foi nada, não, gente. Tava tudo combinado! Foi mais uma do pai! Somente aí o pessoal, ainda meio desconfiado, veio voltando a ocupar o terreiro. Depois se explicou que o tiro fora de pólvora seca.

E vocês três, como ficaram? – pergunta Tatão

- Na hora da confusão somente Leléu e eu estávamos juntos; o Nonô havia ficado mais perto da mesa. Mais tarde ele se juntou a nós, visivelmente embriagado e a queixar-se de que sua pretendida estava com outro. Finda a confusão do “casamento” foi a vez da quadrilha. Novamente cortejo se formou, desta vez, com os sanfoneiros, os da quadrilha e os “noivos”, dando uma volta em todo o perímetro do terreiro, sob os aplausos dos convidados. Quando o Turum, levando sua mulher para o meio do terreiro, onde os dois dariam o primeiro comando para a quadrilha, deu-se o tragicômico; não se sabe como, dona Ninica rodopiou e caiu de pernas pro ar.  O marido tentou ampará-la, mas como estavam de mãos dadas, porém afastados pelos braços abertos, ele acabou sendo arrastado por ela.  Por um momento, a cara da “noiva” desapareceu debaixo daquele mundo de pano branco, que era seu vestido rodado, ficando descomposto o resto do corpo, redondinho e tão branco como o vestido. O Turum amontoou por cima dela e teve dificuldades para se levantar. De longe, as pessoas hesitavam na aproximação para ajuda, constrangidas pelo quadro. Partiu do próprio Turum o estímulo à ação das pessoas:

- Ó xente, arguém m’acode sô!

Somente aí algumas pessoas avançaram e os ajudaram a se por de pé. E mais uma vez foi o Turum a fazer gozações com a situação: sua mulher exposta em peças íntimas diante de todos. Como não sofreram nada na queda, não tiveram dúvida: os dois puxaram a quadrilha, ao som das três sanfonas. Precisavam ver a animação dos donos da festa na dança da quadrilha e no baile geral que se seguiu.

- Pelo jeito – comenta Quinzão – a festa, além da animação natural, estava cheia de surpresas.

- E teve mais, esperem só. À medida que avançavam as horas, mais gente chegava, porém, com predominância de homens. Quando começou o baile, o terreiro da festa estava mais para bigode do que para batom. Nessa situação, quem gosta de dançar, arranja um par e dá jeito de não largar, se não quiser sobrar pelos cantos pelo resto do baile. O arrasta-pé estava animado, mas os pares no terreiro, embora muitos, permaneciam os mesmos. De repente vem, lá de dentro da casa, Bené Turum a carregar um tamborete, que é colocado no meio do terreiro. Ele sobe e grita para os quatro cantos:

- Tenho mutio prazê pra recebê vancêis na minha propidade, mais num quero que ninguém dança par constança nu meu terrêro!  As dama tem qui dançá cum todo e carqué cavaiêro.

Uns bateram palmas, outros deram viva ao Turum e uns poucos malcriados, recém-chegados, chegaram a ensaiar uma vaia. As sanfonas reiniciaram o “funhé-funhé” e tudo voltou ao quadro de antes, sem qualquer troca de par. Passou-se algum tempo e, novamente, Turum subiu no tamborete para fazer a mesma advertência. Nada mudou e, pela terceira vez, Turum subiu no tamborete, dessa vez, um tanto exaltado. Enquanto ele perorava, Leléu e eu vimos o Nonô a caminhar na direção da Mariinha, que não mais tinha o rapaz, visto ao seu lado anteriormente. Sabendo que o nosso amigo estava em estado alterado, imaginamos o que poderia acontecer, se ele tentasse abordar a mocinha. E não deu outra. De relativa distância, vimos quando se aproximou e lhe disse algo. Com os dois braços ela lhe deu empurrão, que o fez estatelar-se de costas, entre pares a dançar mais perto do público assistente. Corremos os dois para ajudar o amigo, mas a compacta massa humana, que se formou no local do incidente, impediu nossa aproximação. Aflitos pelo que acontecera, mais assustados ficamos, quando se ouviu um grande aaaiii, vindo do mesmo ponto. Imaginamos, de pronto, que o Nonô tivesse sido ferido. Em seguida ouviu-se: ai meu Deus, é uma faca! Ficamos desesperados e passamos a abrir caminho, como se no mato estivéssemos. Embora uma pessoa estivesse a sofrer, ficamos aliviados quando vimos não se tratar do Nonô. Vocês devem se lembrar do “Pipote”, assim apelidado devido ao corpo arredondado, que tinha por força da gordura. Ele andava e as pessoas dele se afastavam para não lhe causar mais danos; é que faca ainda estava cravada na lateral do abdome.

- O homem andava com faca enterrada na barriga? Que coisa, hein? – é Quinzão surpreso.

- Bem, felizmente não era uma faaaca, dessas de açougueiro; a lâmina não passava de cinco centímetros e não estava enterrada até o cabo. De acordo com análise dos mais gaiatos, a faquinha só fizera cócegas, não chegando a atravessar a camada de toucinho. Mas de qualquer forma foi mais um  susto que tivemos. Com a atenção desviada para mais esse incidente, havíamos nos esquecido, temporariamente, do Nonô. De amigo em comum, que estivera mais próximo dos acontecimentos, obtivemos informação de que ele não se machucara na queda, embora estivesse um tanto embriagado.

- E você viu para onde foi ele? – ao que nos respondeu: - quando o vi, mais recentemente, disse que se afastaria um pouco daqui, para “amarrar o gato”.

- No estado em que ele se encontrava, depois de tanta comida e bebida, temíamos por um mal estar súbito com consequências das mais graves. Saímos, então, à sua procura. Devido à luminosidade espalhada pelas lanternas coloridas, não nos foi difícil percorrer extensa parte do laranjal, mas nem sinal do Nonô foi encontrado. Quando retornamos ao terreiro da festa, ele já estava meio vazio.

- E o Pipote? – pergunta Tatão.

- Na festa estava presente um enfermeiro, parente do Bené Turum; ele resolveu o problema do rapaz. Conforme haviam dito, a vítima não sofreu nada grave, mas duas perguntas estavam no ar, ainda sem respostas: - quem dera a facada? E, por quê? No meio da confusão em torno do Nonô, o segundo incidente só se mostrou com o grito do Pipote ao sentir a estocada. Ele sentiu mas não viu.

Finda a festa e desaparecido o Nonô, decidimos voltar para casa e, no trajeto, tivemos o cuidado de observar se ele estaria nas vizinhanças da trilha. Não o encontramos e, por isso, resolvemos passar por sua casa. De longe, percebemos que havia alguém sentado à porta e imaginamos que fosse o pai à sua espera, mas constatamos, aliviados, que era o próprio Nonô. Mas, ele não estava bem. Da cintura para cima, devidamente vestido, e, para baixo, vestia só cueca. Pior se verificou quando perguntado sobre a festa, se havia se divertido e coisa e tal. Ele retrucou:

- Que festa? Não sei de nenhuma festa.

- Mas por que você está fora de casa a essa hora?

- Saí por aí, para me distrair um pouco... mas, caí...

- Caiu onde?

- Não sei... parece que era um buraco.

- E sua calça?

- Acho que ficou no buraco.

- Por isso você não entrou em casa?

Nesse ponto, ele começou a chorar e entre soluços revelou:

- Tenho medo do pai...

- Medo por quê?

- Eu perdi a faca dele.

- Faca? Que faca?

- É uma faca pequena, assim – e mostrou, abrindo um arco com o indicador e o polegar. Eu olhei para o Leléu e ele entendeu.

- E como sabe que você a perdeu?

- Porque a bainha está aqui – disse, mostrando a minúscula bainha.

Seu pai deve ter ouvido a conversa, porque a porta se abriu. Fizemos sinal ao “seu” Antão, para que tivesse paciência com ele. Ele assentiu com a cabeça que sim, mostrando que compreendia a situação.

Naquela mesma manhã, as meninas, que espalharam as lanternas na propriedade do Bené Turum, voltaram para recolhê-las. E foi a Mariinha que chamou as demais, para lhes mostrar, pendurada num galho de goiabeira, uma calça.

 

 

 

 

 

 

 

MEDALHA DE PRATA EM PROSA: MARIA LUÍZA VARGAS RAMOS (FLORIANÓPOLIS-SC) - ROMANCE ESCATOLÓGICO

 

 

ROMANCE ESCATOLÓGICO

 

 

NHÁ CHICA

 

 

Ele a amava desde a adolescência, mas ela só aprendera a retribuir este amor depois de adulta. Poderia ter sido um casamento feliz, já que tinham tantas afinidades, entretanto, a maturidade precoce daquela menina não se estendia às questões sentimentais. Vivia desfalecendo diante de olhos claros, portes principescos, assemelhados aos pôsteres de artistas hollywoodianos que enfeitavam as largas paredes do seu quarto no casarão antigo da família. Como não ser romântica na metade do século XX? Assistindo Sissi, O Vento Levou, A Noviça Rebelde e ouvindo Ray Connif, Roberto Carlos, Altemar Dutra, Frank Sinatra?

Nossa protagonista era filha única de um casal estrangeiro e tinha o dia completamente tomado por todas as habilidades que precisava desenvolver, como descendente de europeus que era. A obediência, no entanto, não era sua virtude mais forte e ela experimentava cigarros, goles de martinis e beijos roubados na saída das escapadelas noturnas, sob o pretexto de se reunir com as colegas para fazer trabalhos escolares e, assim, ver as estrelas e namorar os rapazes mais velhos, que já estudavam à noite.

Nesse contexto, contracenou com seu antagonista pela primeira vez, quando ele, oriundo de uma cidade do interior, viera divulgar o grande arraiá que aconteceria na praça do vilarejo, bem em frente à igreja e já no próximo domingo. No meio da comitiva nem havia reparado nele, porque sua aparência muito comum tornava-o vulgar a seus olhos exigentes. Passara os olhos naqueles matutos falando alto, com calças apertadas e camisas desbotadas pelo sol e preferira continuar sentada ao sol, lendo Clarissa, de Érico Veríssimo.

- Não sabe que ler no sol faz mal para a visão?

- Não vê que estou usando óculos escuros?

Este foi o primeiro e fulminante diálogo de um casal que demorou anos para se formar e antes disso foi posto à prova em muitas noites de São João. Ela não conseguia amar seus olhos escuros, seu cabelo crespo, sua baixa estatura. As amigas e a mãe se derretiam com os paparicos que ele lhe fazia, emocionavam-se com as declarações de amor no alto falante das festas, enquanto ela, do alto dos seus quinze anos, só pensava nos outros amores, mais coloridos e palpáveis, mais bem vestidos também.

Passaram-se os anos, cada um construiu sua vida do jeito que achou melhor, ou que deu pra conquistar e se perderam de vista por um bom tempo.

Até que o acaso, sem ter nada melhor para fazer, decidiu colocá-los frente a frente, como forma de testar suas reminiscências.  Mais uma vez numa festa junina, diante da fogueira, com aquela música estridente marcando o passo da quadrilha. Ele a achou igualzinha, com as bochechas rosadas pelo quentão e os lábios vermelhos da maçã do amor. Ela o achou muito melhor do que antes, com um ar mais maduro, os fios prateados nas têmporas, a voz grave e o romantismo de sempre, agora mais discreto, mais de acordo com sua posição na vida.

Ainda apaixonado, ele soube forjar mil e um pretextos para encontrá-la e ela, quem diria, descobriu-se interessada por seu eterno galanteador, outrora tão desprezado, e até um pouco arrependida de não ter dado ouvidos à sua mãe, pois ele estava bem posto na vida e com uma aparência bem melhor.

De fogueira em fogueira o romance solidificava-se e eles até já pensavam em juntar os trapinhos para sempre, muito embora ainda se desentendessem de vez em quando, porque ele continuava matuto na essência e ela não deixara totalmente de se deslumbrar.

 Para comemorar mais um ano do reencontro, o casal agendou uma viagem ao sertão nordestino, na cidade considerada a capital do forró e das festas de São João. Seria o selo definitivo de uma união que começara com o Santo.

Uma coisa, no entanto, a perturbava nessa viagem: a total falta de intimidade entre eles, que, de repente, passariam a dividir um quarto de hotel como se tivessem vivido sempre juntos. Ficava embaraçada com a perspectiva de dividir o banheiro e constrangida de precisar se encerrar nele de vez em quando, fugindo ao ritmo romanesco que sempre imprimiram aos encontros até então.

Mas foi. Pela primeira vez viajando sozinha com um homem, encorajou-se no quentão, pulou a fogueira, provou de todos os quitutes, um pouco assustada com a orgia gastronômica de seu companheiro, que parecia trazer consigo toda a fome do mundo, de tanto que se esbaldava nos  pratos típicos da região, caprichando no dendê, na malagueta e no coentro.

Dançaram animadamente, trocaram beijos com todos os sabores e só voltaram ao hotel depois do sanfoneiro fechar a sanfona. Depois de uma noite inesquecível de comidas e costumes nordestinos, soou a hora de se prepararem para a sua primeira noite de amor.

Enquanto Julieta desfazia as tranças lentamente diante do espelho, com a inibição voltando aos poucos, à medida que o efeito do quentão passava, o pobre Romeu deve ter sentido as agulhadas do veneno dos Capulleto e resistido heroicamente, imóvel, deitado de costas na cama, alegando cansaço e adiando, assim, o jogo amoroso para depois do repouso. Ela se deitou ao seu lado, também sem se mexer, estranhando um pouco a palidez do companheiro, o suor frio encharcando a testa dele e a falta do romantismo costumeiro. Ofendida, virou de costas para ele na cama, pronta para pedir para voltar para casa tão logo rompesse o dia.

 Alheia ao martírio do coitado, resolveu pregar-lhe uma peça, para ficar de lembrança deste primeiro encontro. Avisou que desceria ao saguão do hotel antes dele, para encerrar a conta e chamar um táxi. Iria embora. Ele, surpreendentemente, nem tentou detê-la. Ela, então, abriu a porta, encostou-se na parede do corredor interno do apartamento, e tornou a fechá-la, com estrondo.

O desafortunado Romeu, imaginando-se livre com sua dor, reuniu forças para expulsar de si toda aquela fermentação que lhe dilacerava as entranhas e ouviu, apavorado, o ruído ensurdecedor de um longo e forte rugido libertando-se de seu ventre avolumado e invadindo de pesado aroma o quarto repleto de belas palavras de amor. Que alívio indescritível!

Com a expressão serena e feliz de volta ao rosto, como sempre ficava quando estava perto da sua amada, preparou-se para descer ao encontro dela. Chegando à porta, todavia, deteve-se horrorizado! Lá estava, escondida, a sua Julieta, testemunhando a revolta das vísceras e seus efeitos, ruborizada, sem jeito, desencantada.

O que foi dito nenhum dos dois recorda, pois foram palavras vãs, ditas da boca para fora, apenas para encerrar o encontro de forma civilizada. O que se sabe é que nunca mais se viram, nem se escreveram ou telefonaram. O amor romântico não tem lugar para escatologias; tanto derretimento e melindres não suportaram a condição humana, tal como ela é. Era um amor para ser apenas escrito, idealizado, sonhado; caso contrário, assemelhar-se-ia aos demais e perderia a graça.

Nem Santo Antônio deu jeito!

 

 

 

 

 

 

 

MEDALHA DE BRONZE EM PROSA: JOSÉ CARLOS PANAZZOLO (RIBEIRÃO PRETO - SP) - DENTANDO O PAPEL DE SEDA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MEDALHA DE OURO EM POESIA: JOSAFÁ SOBREIRA DA SILVA (RIO DE JANEIRO - RJ) - FOLGUEDOS DE JUNHO

 

 

Folguedos de junho

 

Pseudônimo: Cometa

 

 

 

Preservo a lembrança do encanto e festança de cada São João!

Sem medo ou canseira, pulava a fogueira, chamando a atenção

O enorme balão se elevava da mão num tremendo escarcéu

e, sem deixar rastro, tornava-se um astro no escuro do céu.

 

Vibrava de agrado, por ver-me chamado de mil direções:

sabia os macetes, soltava os foguetes e os grandes rojões.

Nem mesmo provei das batatas que assei, mas ninguém percebia...

nem eu me importava, se nunca as provava e somente as servia.

 

Quentão não bebia, pois tinha a alegria por dom natural!

São João me enlevava e animado eu cantava os refrões do arraial!

Ao cabo da noite, corri, meia-noite, com forte emoção ;

feri bananeiras, com moças solteiras, de faca na mão.

 

Dancei nas quadrilhas das nobres famílias do meu quarteirão

e, ao som das sanfonas, ganhava as “duronas”  com charme e afeição.

Mas hoje eu bem vejo: não há mais festejo, meu corpo cansou.

Já velho, na esteira, não salto a fogueira, nem mostro quem sou...

 

Nem lembro meu salto!...Mas vejo, bem alto, os balões que eu soltei...

mas não são aqueles... Será que são eles? Jamais saberei!

Rojões barulhentos laceram os ventos...e eu quase nem ouço!...

A mão que definha não acha a estrelinha no fundo do bolso...

 

Cadê meus chuveiros...rodinhas...morteiros ? Cadê minha vida?

A lágrima explode, a escapar como pode, no céu, colorida...

Se escuto a sanfona, meu ser se abandona à mercê da saudade.

Não há quem o mude: perdi juventude no avanço da idade!

 

Quem quer companhia de alguém, hoje em dia, idoso como eu?

A  brasa extinguiu, pois a cinza a encobriu. Nela o  moço morreu!

Fogueira apagada, batata queimada, carbono e carvão...

O meu bananal? Faleceu no quintal, golpeado a facão.

 

Mas, velho, eu componho e não me envergonho

se, em junho, ainda sonho tão doce quimera.

Em noite junina, minha alma, menina,

festeja,  na esquina, o moço... que eu era!

 

 

 

 

 

 

 

 

MEDALHA DE PRATA: ANGELA MARIA GUERRA DE ANDRADE (RIO DE JANEIRO - RJ) - BALÃOZINHO JUNINO

 

 

 

Balãozinho Junino

Gordota Caipira

Vai

subindo

o balãozinho,

tão bonito, colorido...

Leva os sonhos do menino

que quer alcançar as estrelas...

Seu balãozinho até cintila como uma estrela!...

Sobe, sobe, sobe, balãozinho, iluminado pelo fogo da bucha,

o mesmo fogo que arde nas encostas e lambe, feroz, as paredes

toscas dos casebres do morro quando um balãozinho cai...

Não foi o dele que caiu, mas o casebre ardeu

e sua irmãzinha querida se foi...

O menininho sonhador, que

queria alcançar as estrelas,

nunca mais acendeu

um balãozinho

junino

.

.

.

 

 

 

 

 

 

 

MEDALHA DE BRONZE: SÔNIA MARIA SOBREIRA DA SILVA (RIO DE JANEIRO - RJ) - NOITE DE SÃO JOÃO

 

 

              NOITE DE SÃO JOÃO

 

 

 È noite de São João! O vilarejo reluz!

 Bandeiras e bandeirolas enfeitam mais o lugar.

 Em cada canto as fogueiras espantam as sombras da serra,

 espalhando brasas vivas fragmentadas em cores,

 rolando por sobre a terra.

 

 

 E completando a alegria tão intensa desse dia,

 os festivos foguetões cortam a imensidão do ar,

 prá depois caírem ao léu como cadentes estrelas

 tão bonitas de se vê-las, assim, a caírem do céu.

 

 Brindando a grande festança dessa noite sem igual

 espocam bombas mais raras, tremendo todo arraial!

 

 

 Quando a tarde vai chegando, as moças buscam correndo

 o nome do seu amor cravado no bananal

 e nem se importam se é Pedro, António, Hilário ou José.

 O que importa é a brincadeira e o passar da noite inteira

 no famoso arrasta-pé.

 

 

 Mas quando a noite esmaece,

 a sanfona estremece, a quadrilha vai dançar!

 Ao longe, lá no horizonte, piscando quais vagalumes,

 cada qual de intenso lume, surgem os primeiros balões

 que, em silêncio vão subindo qual imensa procissão,

 enfeitando a lua cheia, empurrando a escuridão.

 

 

 Em meio a tanta algazarra o canto da passarada

 mostra que o dia raiou. O sanfoneiro adormece,

 o braseiro não aquece, não se vê nenhum balão,

 a quadrilha já não dança, nem se ouve o foguetão.

 Mas aqui dentro do peito, no fundo do coração,

 fica tudo bem guardado. E se num junho qualquer

 a festança retornar: estarei aqui de pé, explodindo de emoção,

 dançando no arrasta-pé, dando VIVA A SÃO JOÃO!

 

 

 

 

 

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