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TEXTOS VENCEDORES IV LITERATURA DA NATUREZA
TEXTOS VENCEDORES IV LITERATURA DA NATUREZA

                                              QUADRO DE MEDALHAS

 

 

NA CATEGORIA “POESIA”

 

MEDALHA DE OURO:

 

 

 

 

 FRAGMENTOS DE SOL E LUA (AGLAÉ TORRES)

 

Plantadas na noite

as raízes da aurora

aprofundam-se no céu

asfixiando as estrelas

   Debruçando-se sobre o mundo

a gigantesca árvore-dia

emite claridade da copa

   voltada para a terra incendiada

Seus - os maduros frutos –

         Raios de Sol

iluminando a  Natureza

sonolenta.

 

Entardecer

                                    Fragmentos de dia encaixam-se

no quebra-cabeça colorido

de emoções em  arco-íris

tons fortes e fracos formando

                           um quadro de vida

captado na mente em vãos.

 

Incêndio no Céu...

O Sol descendo

                  pelo escorregador de nuvens

                  mergulha no horizonte 

sem volta

abrasando o céu.

 

 

                                    A lua branca emocionada

                                    ocupa o lugar deixado pelo sol

                                    e colhe saudades no diavagaroso

                                    do amor impossível de fusão.

                                    Sem luz nem brilho,

                                            desmaiada

                                    em busca do calor do sol

                                            desocupado.

 

A Lua no céu azul de noite clara

     debruçada

refletindo o brilho e forma na piscina,

     transformada

em lua cheia atrás das grades de galhos

 retratando a lua prisioneira.

 

Abriram-se no céu as venezianas de nuvens

  e a Lua espiou.

     Lua Cheia.      

Deslizando pelo tule de nuvens

     escondeu-se em escuro

         e nesse entra-e-sai

     ocultando-se e brilhando

fazendo-se desejada pelas ausências.

De repente

a Lua aparece plena, vitoriosa.

    Venceu a batalha!

 

 

 

 

NO RANCHO (LUZARTE DE MEDEIROS BRITO)

 

AQUI, SIM, A VIDA É BELA

NA SOMBRA DESTE RANCHINHO,

SENTADO À BEIRA DO MATO,

MEU MAIS DOCE E CASTO NINHO,

COMO SE, NA VIDA, EU FOSSE

UM LIBERTO PASSARINHO.

 

CONTEMPLO CAMPOS E SERRAS

AZULADAS, MUITO ALÉM...

NO PANORAMA DO SUL

VEJO A CIDADE TAMBÉM,

MAS ALI, COMO NOS CAMPOS,

BEZEZAS TANTAS NÃO TEM,

 

LÁ EXISTEM BELAS PRAÇAS

QUE OS NAMORADOS DESEJAM,

MAS AS FLORES MAIS VIÇOSAS

QUE OS BEIJA-FLORES BEIJAM

NÃO TÊM O MESMO PERFUME

DAS FLORES QUE AQUI VICEJAM

 

HÁ FESTAS E DIVERSÕES,

PARECE UM MAR DE ORGIA,

PORÉM ALI NA CIDADE,

PALCO DE TANTA ALEGRIA

NÃO TEM A SOMBRA DO RANCHO

ONDE EU ESCREVO POESIA.

 

LÁ NÃO TEM A MELODIA

DA PASSARADA QUE CANTA,

NEM CHEIRO VIRGEM DA TERRA

QUE A CHUVA DO CHÃO LEVANTA,

POR ISSO QUE DO MATUTO

A FELICIDADE É TANTA.

 

O POVO ALI DA CIDADE

SE DO CABOCLO FAZ TROÇA,

É PORQUE AQUELA GENTE

NUNCA VEIO AQUI NA ROÇA

PARA TAMBÉM SER FELIZ

NA SOMBRA DUMA PALHOÇA.

 

Sítio Fortuna, São João do Sabugi/RN.

Idos de 1970           

 

 

 

 

RIO MARINHO (VERA MARIA DA PENHA)

 

 

O rio Marinho,

Muito limpinho,

Todo alegrinho,

Corria faceiro

Pro lado do mar.

 

Levava  canoas

Pra lá e pra cá.

Vestia  as cores do mar

No empurrão da maré,

Que o forçava  subir

Em vez de correr

Pro lado do mar.

Era só travessura

No seu movimento

De ir e voltar.

 

Quando vinha a enchente

Usava veste barrenta,

E saltava sobre  as margens,

Só mesmo para  assustar

A gente ribeira

Que espiava com medo

Dele tudo levar.

 

O rio Marinho seguia limpinho,

Levando canoas pra lá e pra cá.

Tinha  águas salobras pro lado do mar.

Mas quem tinha pés sujos

Podia nelas lavar.

Por ele  passavam barcos,

Canoeiros destemidos,

Sem medo de afrontar.

 

Havia peixes a nadar.

Uma tarrafa bem lançada

Garantia o jantar.

 

O rio Marinho

Era rio e era mar.

 

Hoje, o rio Marinho

Tão pobrezinho

Perdeu sua glória

De barcos levar

Para  lá e pra cá.

Como um velho vencido,

desfila  pesado,

 vestido de preto.

Carrega em seu leito

dejetos humanos,

Sapatos, chinelos

Vestidos rasgados,

Sofás destruídos,

Animais falecidos...

A tudo ele arrasta,

Com muita penúria

Pro lado do mar.

 

Cheira tão mal

Que ninguém se atreve

Nele pisar.

 

E quando a enxurrada

Lhe dá  novo  banho

O que leva vomita

Com boca enojada

Nas águas do mar.

 

O rio Marinho

Era rio e era mar.

 

 

 

 

MEDALHA DE PRATA: 

 

 

ARACURI (JURACI DA SILVA MARTINS) 

 


Teu canto é guerra,

Defende a terra,

Que é ventre e é seio,

Que é berço e é pão.

É o canto da fauna

Em serestas vigias,

Para a ecologia

A pedir proteção.

Deixai que nas matas,

Cantem os pássaros,

E os peixes nas águas

Possam viver.

Deixem nos campos

Andarem as emas,

E entre os serrados

A vida nascer.

Que as gralhas azuis

E os patos –arminhos,

Teçam seus ninhos

Sem nada temer.

Que as aves cativas,

cortem os ares,

Sobre os jaguares

Andantes da paz.

Que o canto de todos

No meio ambiente,

Impeçam na terra

A vida morrer.

Que os passarinhos

Cantem a beleza

Da natureza

Em doação.

 

 

 

 

 

                                              O VENTO E A LUA (VICÊNCIA MARIA FREITAS JAGUARIBE) 

 

 

 

Lá fora o vento assovia

Uma canção ao luar.

À lua reverencia.

Ela não quer escutar.

 

Olhando através do frio

Pela janela se vê

Vê-se a lua num navio.

Delírio, só pode ser.

 

Em meio às nuvens navega

Em águas muito serenas.

Pobre vento: ora sossega

Ora expõe as suas penas.

 

Mas a lua, indiferente,

Continua a navegar.

O barco vai sempre em frente

Até o abismo encontrar.

 

Escura nuvem o apaga

Nenhum olho o pode ver.

Do vento o assovio vaga

Vai saudar o alvorecer.

 

Nós também vemos fugir

Em um navio fantasma,

Sem sequer se despedir,

O amor que nos cegava.

 

Somos ventos que assoviam

Para a pessoa que amamos

Que nem sempre desconfia

Do quanto a idealizamos.

 

 

 

 

O TAPETE DA VIDA (CARLOS EDUARDO POMPEU) 

 

 

Que a morte venha ternamente

e a vida se esvaia lentamente,

para que eu possa, em placidez,

assistir aos meus últimos momentos.

 

Que sejam como os das flores

e das folhas do outono,

que ao soçobrarem,

quando dos galhos se desgarrem,

flutuem bailando no ar,

até pousarem num tapete,

casual e úmido,

de flores murchas,

 folhas mortas

e húmus.

                                                          

 

 

 

MEDALHA BRONZE:

 

 

 

 

TARDE DE VERÃO (NEWTON NAZARETH) 

 

 

Ebulição infernal, asfalto ferve,

Emana um insuportável vapor,

Vindo do meio dia com sol a pino,

Irradiando seus raios de calor.

 

Nas áreas urbanas os arranha-céus,

Parecem unir-se quase no espaço,

E conspirando contra o oxigênio,

Cada vez bem mais difícil e escasso.

 

Pessoas andam se esbarrando e trôpegas,

Às pressas e sequiosas por um bar,

Elas parecem suplicar por socorro,

Resfolegando e ansiando o ar.

 

Temperatura alta, insuportável,

Face úmida, axilas molhadas,

Gotas de suor escorrem pelas têmporas,

Paletó nas mãos, camisas encharcadas.

 

Nas praias superlotadas é a antítese,

Banhistas seminus expostos ao sol,

Distantes de tudo, longes, distraídos,

Mergulhando, ou praticando o “frescobol”.

 

É a tranquilidade, é um oásis.

Nos bares da orla, chope e cerveja,

Alegria contagiante com risos,

Euforia, atmosfera benfazeja.

 

Surge aos poucos uma pequena aragem,

Que vai se apresentando discretamente,

Mostrando velocidade que aumenta,

Cuja intensidade cresce fortemente.

 

É o afamado vento sudoeste,

Respeitado por sua ferocidade.

Mais conhecido como um destruidor,

E o grande formador de tempestade.

 

Agora já se nota uma ventania,

Com intensidade avassaladora,

Que vai derrubando tudo à sua frente,

Destruindo com fúria assustadora.

 

 

 

Faíscas de relâmpagos rasgam céu,

É vista uma escuridão vesperal,

Os roncos das trovoadas amedrontam,

É o prenúncio de um forte vendaval.

 

Vários pingos espessos se precipitam,

Aumentam a cada fração de segundo,

Chove exageradamente, sem parar.

Horrível, até parece o fim do mundo.

 

Ruas alagadas, trânsito infernal,

Todo sistema de sinais apagado,

Soam sirenes, pedidos de socorro.

Desastre total é o caos instalado.

 

Todos correm a esmo sem direção,

Desconhecendo riscos e o perigo,

Tropeçando, esbarrando-se, caindo,

A procura de proteção num abrigo.

 

Gradativamente a chuva diminui,

Silenciosa e serena sem alarde.

Por do sol já aparece no seu ocaso,

E se vislumbra os sinais do fim de tarde.

 

A noite chega imponente e majestosa,

O céu está sem nuvens todo estrelado,

No fundo a lua cheia resplandecente,

Irradia seu brilho prá todo lado.

 

Agora com toda calma e sem transtornos,

As pessoas caminham no calçadão,

O calor aos poucos volta como antes,

De uma noite típica de verão.

 

A cara da cidade volta ao normal,

Toda iluminada e sempre graciosa,

Esbanjando amor e hospitalidade,

Naquela que é linda e maravilhosa. 

 

 

 

 

POEMA EM ALDRAVIPÉIA (SUZANA MARIA CRUZ PEIXOTO) 

 

 

 

 

paisagens
  formosas
  encantos
  da
  natureza
  Deus

 

 

a
  terra
  nosso
  berço
  nosso
  chão

 

 

o sertanejo
  escuta
  o
  capim
  crescer

 

 

chuvisco delicioso
  frescura
  de
  capim
  molhado

 

 

buquês
  de
  ipê
  florada
  da
  beleza

 

 

flores
  no
  jardim
  harmonia
  da
  vida

 

 

gotas
  de
  orvalho
  ornamento
  das
  flores

 

 

vento
  faz
  voar
  grãos
  de

poeira

 

 

 

o
  vento
  uivando
  açoita
  os
  arvoredos

 

 

pássaros
  na
  tempestade
  revoada
  sem
  rumo

 

 

outono
  chega,
  folha
  cai,
  árvore
  desnuda

 

 

límpidas
  águas
  nascentes:
  lágrimas
  da
  terra

 

chuá...
  chuá...

águas murmurantes
  da
  cascata

 

 

cascata

cristalina

sua

sina

sempre

cantar

 

 

chuê...
  chuê...
  o

rio

que
  canta

 

 

cursos
  dos
  rios
  caminhos
  sem
  volta

 

praia
  beira-mar
  delicada

brisa

que
  alisa
 
 

 

carinhosa
  brisa
  acaricia
  chega
  de
  mansinho

 

 

ondas:
  do
  mar

borbulhas
  lambendo
  praias

 

 

poderosa natureza

inesgotável

fonte

de

beleza

 

 

 

                                              

NA CATEGORIA “PROSA”

 

 

MEDALHA DE OURO:

 

 

 

ÁRVORES (FERNANDO BEVILACQUA)

 

 

         Árvores são como pessoas – quase sempre melhores.

         Alguns, que afirmam se comunicar com elas, garantem que, embora não falem, entendem e respondem aos tratos carinhosos. Outros asseguram (coincidência ou não) que outras são fulminadas por olhares impregnados de ódio, inveja e frustração (isto vale mais para plantinhas frágeis).

         Não fossem as camadas atmosféricas que envolvem o planeta, a Terra teria coloração verde e não azul, tal a presença massiva das árvores.

         As árvores são vaidosas, não fossem elas do sexo feminino. Quantas são vistas com seus corpos retorcidos, em poses sensuais, até mesmo as que demonstram indisfarçável e assumida obesidade. E as que se enfeitam de flores, em flagrante exibição, aguardando, sem falsa modéstia, olhares extasiados e perplexos? Vaidosas sim, vulgares quase nunca. Expõem seus adereços sazonalmente, provocando a ansiedade da próxima vez. O que dizer do Ipê, a produzir “orgasmos visuais” e não mais do que durante parcos sete dias de exposição? Embora vaidosas e sensuais, nunca se apresentam despidas de suas roupagens, modestas que sejam. Os corpos lisos, “depilados”, culminam com cabeças coroadas por “cabeleiras” de várias tonalidades, tipos e volumes pilosos. Não abrem mão de suas vaidades: à medida que envelhecem, perdem suas melenas, veem seus “membros” fraturados por pequenos traumas (como se tivessem osteoporose, à semelhança dos humanos), e como não suportam se mostrar feias, com corpos esquálidos e sem viço, secam; preferem a morte e assim serem lembradas por suas exuberâncias da juventude. Quanta sabedoria, quanto desprendimento!

         As árvores são temperamentais – mulheres como nunca! Plantadas em locais onde não poderão expandir suas raízes ou seus galhos ( no sonho de alcançar o firmamento), destroem calçadas, derrubam muros, danificam telhados, entopem bueiros e calhas, em avisos contra aqueles que pretendem domá-las. Respondem às amputações de seus membros (as podas) enchendo-se de novas energias, robustecendo-se, numa advertência de como resistem às agressões. Bem tratadas, acariciadas, adubadas com amor, fornecem de tudo o que se lhes pedir: a sombra para momentos de descanso e reflexão, ramos emplumados para proteger os viajantes dos mistérios da noite, palha para forrar o solo e acolher corpos apaixonados em delírios silvestres, casca e raízes para alívio e tratamento de dores e doenças, troncos para fabricação de sua jangada que o levará de volta ao lar, aquele mesmo construído com a madeira por elas fornecida. E mais: um galho bem apontado pode servir de arma de defesa ou de caça, a salvar sua vida ou matar sua fome.

         As árvores são imprevisíveis. Vão ser femininas no inferno! Vistas de longe, há sempre a expectativa de momentos alvissareiros. Nem todas, contudo, irão participar de boas lembranças. Espinhos deixam arranhões dolorosos, folhas aveludadas escondem ardências, pruridos e inchações inesquecíveis, frutos atraentes e de aparência hipnótica e ingênua intoxicam, quando não matam. Fica aqui um alerta: árvores são fantásticas, mas nem sempre confiáveis. Com quem parecem esses seres, filhas de Deus, como nós?

         Árvores são necessárias, indispensáveis, da mesma forma que pensam os homens (só os mais sábios) sobre as mulheres; sendo assim, precisam ser preservadas – árvores e mulheres. Deixem que as árvores morram espontaneamente. Não as matem. Elas têm a sabedoria do adeus.

         Oh! mundo insensível, oh! pessoas insanas! No encontro de uma “árvore – mulher”, proteja-a, adube-a e regue-a sem cessar.

                                          Eis a possível salvação!

                                 

 

 

 

MEDALHA DE PRATA:

 

SERENATA DE PASSARINHO (VICÊNCIA MARIA FREITAS JAGUARIBE)

 

 

Era uma casa de meia-água a que comprei, com um casal amigo, na praia do Morro Branco. No meu quarto, entre uma das linhas e a parede, havia uma abertura que marcava bem uma das quinas. Abertura decorrente do serviço mal feito do construtor daquelas casinhas que formavam os primeiros conjuntos da Tabuba do Morro Branco. Pois por essa abertura entrava, todo dia, cedinho, um passarinho.

            Eu entregara-me ao sono tranquilamente, tirando desforra das noites mal dormidas durante a semana e tentando diminuir o estresse de cinco dias de sala de aula, de engarrafamentos e preocupações, quando era despertada pelo canto ou pelo voo rasante do pequeno pássaro – que ainda hoje não sei de qual espécie era. Talvez um sibite. Mas não posso afirmar. Minha primeira reação era de raiva, afinal de contas, eu estava no melhor do sono e vinha aquele desocupado acordar-me. Ele dava umas três voltas pelo quarto e saía. Eu, às vezes, com raiva por haver acordado, levantava-me e começava o dia mais cedo. Outras vezes, conseguia adormecer de novo. Tanto reclamei dessas visitas madrugadeiras, que acabaram por mandar fechar a abertura. E o passarinho ficou sem a passagem através da qual me dava bom dia, e eu pude dormir sossegada e acordar na hora em que bem quisesse. Se bem que nunca fui de dormir demais. Amigos que tinham conhecimento dessas visitas passarinhescas diziam, para me amolar, que era um privilégio acordar com a serenata de um passarinho dentro do quarto. Eu sempre retrucava: Dispenso esse privilégio.

            Mas a vida dá o troco. Depois que vendemos a casa do Morro Branco, inventei de cultivar plantas em minha minúscula sacada. Pendurei entre as plantas um bebedouro para atrair passarinho com uma boa garapa de açúcar. E vêm sibites e beija-flores. Pois não é que, de vez em quando, os pequenos sibites entram no apartamento e ficam passeando pelos aposentos?! Já morreu mais de um nessas aventuras – eles entram e ficam debatendo-se, em busca da saída. E não adianta abrir portas e janelas e tentar encaminhá-los para o espaço livre. Eles mesmos é que devem encontrar o caminho. Mas o certo é que quase todo dia acordo aos acordes das serenatas dos sibites?! E não me aborreço mais. Até que gosto. Quando alguém reclama do barulho que eles fazem, com um sorriso de ironia (ironizo a mim mesma) repito o que me diziam nos tempos do Morro Branco: É um privilégio acordar com o canto dos passarinhos.

            O ser humano não tem jeito mesmo. Só gosta do que é difícil, só dá valor ao que lhe custa algum dinheiro, algum trabalho, algum sacrifício. Na casa da praia, os passarinhos visitavam-me sem ser convidados, e eu não despendia nenhum esforço, nenhum dinheiro para tê-los em meu quarto e ouvir seu canto toda manhã. E não lhes dava valor, até enxotava-os. Hoje, quando preciso atraí-los com uma beberagem, quando tenho de gastar dinheiro para comprar o bebedouro, sou uma anfitriã gentil e feliz.

            Às vezes, passo horas na janela do meu quarto esperando a visita de um deles – principalmente dos beijas – para apreciar seu voo ou fotografá-los. E eles não estão nem aí. Descobri que também para ir à minha sacada eles escolhem a época, principalmente os beija-flores. É nos tempos chuvosos que eles se fazem mais presentes. Por quê? Para ser franca, não sei. O que sei é que, quando o sol se esconde, quando fica um pouco nublado, eles começam a aparecer. E, na temporada de chuva, nem se fala. Dão até prejuízo, já que tenho de abastecer o pequeno bebedouro até três vezes ao dia.

            O que sei é que fotografar passarinho virou uma mania – tenho belas fotos de sibites e de beija-flores, que sempre tiro por trás do vidro da janela de meu quarto. Estamos em dezembro, época em que parece até que eles se esqueceram de mim e de minha sacada. Mas agora, enquanto escrevo esta crônica, ouço o canto de um sibite. Para melhor apreciá-lo, vou fechando este texto com chave de... palavras mesmo. Acho que, se os passarinhos do Morro Branco tomassem conhecimento desses fatos, iriam morrer de rir... opa! Já disse um estudioso que rir e chorar são prerrogativas humanas. Serão?

 

 

 

 

MEDALHA DE BRONZE:

 

 

BRASIL BOVINO (MARCELO VINICIUS CSETTKEY DOS SANTOS)

 

 

 Será que realmente precisamos ingerir pedaços de boi? Atualmente, a necessidade vital da “proteína da carne”, é, para muitos, um conceito refutável! Diversas correntes científico/sociais enxergam o consumo de carne de boi como fator degradante, tanto da fisiologia humana quanto do meio ambiente. O médico vegetariano Dean Ornish afirma: “Os aminoácidos oriundos dos alimentos vegetais são exatamente os mesmos aminoácidos dos alimentos animais” (ORNISH, 1990: 243). Tal afirmação põe por terra a tese da necessidade da proteína animal para o ser humano sobreviver.

 

 Muitas pessoas estão abdicando da necrofagia por saber das mazelas que - além das nutricionais -, colocam a carne bovina em suspeição!

 

No Brasil, grandes áreas de florestas são destruídas por causa da pecuária! O processo consiste em derrubar árvores, incendiar o que resta, e plantar capim para o gado pastar. A pecuária foi se espraiando de forma descontrolada ao ponto de ameaçar os dois grandes biomas do país, que estão condenados ao desaparecimento em poucos anos, caso não haja providências urgentes! O IBGE alerta para o risco de extinção do cerrado. A cobertura original do bioma foi reduzida à metade, 48,37%.  Na Amazônia a situação não é menos alarmante, há hoje 70 milhões de cabeças de gado vivendo do solo pobre, onde, cerca de 20% do bioma já foi desmatado e queimado.

 

A mídia corporativa enaltece a liderança do Brasil na exportação de carne, mas a que preço para o meio ambiente?  Será que a carne do Brasil é tão confiável assim?

 

Neste momento exato, brasileiros estão comendo carne sem qualquer fiscalização. O veterinário assina o bloquinho de notas, fingindo que fiscalizou, e nem olha o boi. É uma calamidade. Terríveis doenças podem ser contraídas(...) Ninguém olha nada. Das 35 milhões de cabeças de gado abatidas por ano no Brasil, 20 milhões estão sob inspeção federal, os outros 15 milhões são abatidos com pouca ou nenhuma análise. Os brasileiros que estão comendo essa carne estão correndo riscos. Disse Joesley Batista, o presidente do grupo JBS.  (Míriam Leitão, O Globo, 21 de abril de 2012).

 

15 milhões de carcaças sem fiscalização, originadas, em sua grande maioria, de abatedouros clandestinos? É de fato uma calamidade!

 

O capricho humano de comer carne pode ser o catalisador da extinção da floresta que todos alegam querer preservar. Contraditório, não é? Mas real! Estudos realizados pela FAO-ONU indicam que o consumo de carne vermelha precisa reduzir o seu impacto sobre o meio ambiente pelo menos em 50%. Apesar desse alerta, o número de consumidores de carne no Brasil e no mundo cresce a cada ano, a consequência lógica dessa constatação é mais destruição do que resta de floresta.

 

Muitos dirão que a agricultura também é culpada. Na verdade, o relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) indica que mais da metade do que é plantado no mundo se destina à alimentação dos animais disse Achim Steiner, chefe do Pnuma para o jornal, Estado de S. Paulo. Aliás, segundo o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisa Espacial) e Embrapa a agricultura é responsável por apenas 5% do desmate.

Os brasileiros, em péssimo exemplo, são os que consomem a carne suspeita de matadouros clandestinos, e a carne oriunda da Amazônia.

 

O desmate da floresta reduz de forma drástica o refrescamento da atmosfera pela evaporação dos bilhões de gotas de água das folhas de cada árvore, fenômeno conhecido por evapotranspiração. Segundo o Inpe, a derrubada da floresta causa redução acentuada na evapotranspiração. A consequência inevitável é uma alteração nos ventos, possivelmente levando a seca a várias regiões! Os “rios voadores” – correntes de ar que transportam a umidade gerada na região amazônica para praticamente todo o país -, estão secando! O que afetará o clima e, grande parte das chuvas do Centro- oeste, Sudeste e do Sul. Os Ventos Alísios sopram do mar para o continente.  Sem a evapotranspiração necessária para atrair os Ventos Alísios o resultado previsto é de secas intermitentes - o que, muito provavelmente, já esteja acontecendo. “Em 2005, 37% da área da floresta registrou chuvas abaixo da média. Em 2010 o índice chegou a 57%.” (O Globo, quatro de fevereiro de 2011).

 

Em 36 anos o país aumentou em duas vezes e meia o território usado com pastagens plantadas – Indicadores de Desenvolvimento Sustentável do IBGE apontam que entre 1970 até 2006, subiu de: 3,5% para 12% do território nacional. As árvores são derrubadas sem o menor respeito aos animais e insetos que nelas habitam. A ganância humana devasta e queima sem o menor constrangimento. A riqueza da fauna e flora é ultrajada pelo imediatismo que derruba a mata em busca de dinheiro fácil. Um lucro ilusório, pois em pouco tempo nada restará a não ser um grande deserto exaurido, morto!

 

O solo amazônico é pobre. Paupérrimo! A exuberância da floresta foi conseguida após milênios. As raízes das árvores não são profundas, exatamente porque o solo é arenoso. Em pouco tempo, o local onde é explorada a pecuária torna-se impróprio! Mesmo assim, a maioria dos brasileiros quer ser pecuarista. O pior de tudo, é que a ignorância prevalece! A cultura tacanha do brasileiro prefere transformar o país em enorme latifúndio para o gado pastar, um Brasil bovino! Ricos e pobres, unidos na canoa furada da necrofagia irresponsável.

 

A ganância humana é surda e imediatista. Onde havia vida multicolorida, em rica biodiversidade, passa a ter toco queimado, grama e boi. O boi não tem culpa por protagonizar essa triste realidade. Também não tem como reivindicar seu direito a mais tempo de vida. O bicho homem o condena à morte obrigatória, esquartejadoem um espetáculo de violência inaudita! É uma aberração que vem de muito longe. As pessoas precisam saber que comer mamíferos não nos é imprescindível, é um capricho – como foi um capricho para nossos antepassados, mergulhados em profunda ignorância, comer carne humana –, um capricho perigoso!

A realidade assusta pelos números, no Brasil há mais bois que pessoas – 209,5 milhões de bois (IBGE), contrastando com 190.732.694 pessoas (IBGE). E a tendência é que essa diferença aumente. A demanda por carne cresce a cada ano. Poucos se locupletam em detrimento de muitos que, em profunda ignorância, desconhecem sua participação ativa na inexorável condenação das gerações futuras – ignorantia legis neminem excusat. Ninguém, absolutamente ninguém, alegará impunemente o desconhecimento da lei da natureza. Chegará um momento em que não haverá mais chance de salvar nossos principais biomas. A Amazônia e o Cerrado estão morrendo, e os insensatos fingem que o problema não existe, ou minimizam a sua gravidade. Por incrível que possa parecer, a solução é simples e, está em nosso prato de comida!

 

 

                        

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